COVID-19
Medicina

Fisiologia do medo

Parte 1

Nego-me a submeter-me ao medo,
Que me tira a alegria de minha liberdade,
Que não me deixa arriscar nada,
Que me torna pequeno e mesquinho,
Que me amarra,
Que não me deixa ser direto e franco,
Que me persegue,
Que ocupa negativamente a minha imaginação,
Que sempre pinta visões sombrias.
No entanto não quero levantar barricadas por medo do medo,
Eu quero viver, não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro,
E não para encobrir o medo.
E quando me calo, quero fazê-lo por amor
E não por temer as consequências de minhas palavras.
Não quero acreditar em algo só por medo de não acreditar.
Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
Não quero impor algo aos outros pelo medo de que me possam impor algo a mim.
Por medo de errar não quero tornar-me inativo.
Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro no novo.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de ser ignorado.
Por convicção e amor quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
Do medo quero arrancar o domínio de dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que existe em mim.

Rudolf Steiner


Nesta época em que todos estamos envolvidos por uma situação extremamente nova, a pandemia provocada por um vírus, temos inúmeras informações de várias fontes e diferentes opiniões, a maior parte delas dando-nos explicações de possíveis causas. Estamos todos a tornar-nos especialistas em Covid 19. No entanto, na verdade, ninguém sabe muito a este respeito.

É sempre assim quando uma nova situação patológica nos afronta. A ciência e os filósofos querem descobrir a causa num movimento dirigido a combater e explicar os seus efeitos.

Causa e efeito tornam-se muitas vezes a mesma coisa e no final perdemo-nos na célebre pergunta: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?

A medicina antroposófica tem como objetivo tratar o indivíduo na sua totalidade e dentro do respeito pelas suas particularidades.

Neste sentido, são raras as vezes em que um médico antroposófico receita por protocolos ou segue orientações padronizadas, pois parte do princípio de que cada um é um universo em si, particular e único.

Muitas medidas já foram divulgadas pela secção médica do Goetheanum visando o esclarecimento e a sustentação dos efeitos que os remédios antroposóficos têm, bem como as suas diversas terapias complementares. Mas, no final, fica a terapêutica individual como sendo aquela que irá exercer o melhor benefício ao ser que padece.

Todas as medidas de manutenção da saúde divulgadas são gerais e não exclusivas para a pandemia. É óbvio que devemos cuidar de uma alimentação sadia, de um ar mais puro, do não uso de substâncias tóxicas, de evitar atos insalubres, de cultivar o movimento, de manter uma atitude de pensamento altruísta. Isto é válido sempre e agora fica muito claro e muito atual diante do medo que isto tudo gera.

Inúmeras teorias filosóficas e até mesmo conspirativas bombardeiam a nossa mente e provocam ainda mais pânico e medo, desconfianças e atitudes desamorosas diante do outro e principalmente para connosco próprios.

Todos nós estamos dentro de um processo evolutivo, em conjunto, e ninguém é melhor ou pior do que o outro. A responsabilidade é de todos, daquele que provoca um desequilíbrio e daquele que nada faz para corrigi-lo.

Até parece que estamos na corrida do ouro, quem chegar primeiro leva a melhor pepita…Aquele que tem a melhor explicação é visto como iluminado e aquele que mais promete é o que tem melhor produto.

E aqui quero fazer uma analogia com o ouro. Este metal é considerado nobre aos olhos materialistas pelo valor financeiro que lhe foi imposto. No entanto, é o metal representativo do Sol, fonte das forças de vida no nosso universo terreno. Forças renováveis, às quais não precisamos pagar factura no final do mês. O Sol em linguagem imaginativa nada mais é do que o nosso coração. Não este coração que aperta e relaxa, que impulsiona e suga, mas o coração que tudo percebe, tudo vê, tudo sente. O coração como órgão central do nosso sistema orgânico e ao mesmo tempo órgão periférico da nossa constituição. O Sol está no centro e na periferia ao mesmo tempo. Assim, o coração também está no centro da nossa alma e em comunhão com as almas dos outros.

A principal característica das forças solares e /ou cardíacas é o entusiasmo. Não podemos medir com o eletrocardiograma esta qualidade, mas podemos ter e sentir os seus efeitos.

O entusiasmo é uma qualidade de sentimento, é algo que aquece e estimula para o novo. Com entusiasmo as pequeninas coisas tornam-se grandes, aquilo que parece insignificante torna-se de enorme valor.

O entusiasmo dissipa o Medo.

Não quis aqui escrever sobre o medo nas suas diferentes características, mas sim como um conceito geral que abarca uma situação decorrente de uma ameaça.

Numa próxima vez poderei especificar quais os diferentes medos que aparecem no indivíduo e estão ligados a um órgão ou um tipo de constituição.

O medo deve ser visto como uma reação a uma ameaça e portanto não podemos ter medo de ter medo. Ter medo é natural a todos nós. Mas, do mesmo modo que nos deixamos ameaçar, podemos combater a ameaça com o fogo transformador do coração e fazer da ameaça um motivo para ter algo de novo a conquistar.

Foi o medo dos monstros e demónios que viviam no fim da Terra que gerou o entusiasmo da conquista de novas terras e levou ao encontro de novos paraísos. Foi o entusiasmo de querer provar que não havia monstros e de que o mar não acabava no infinito que gerou a transformação do medo em certeza e confiança. E este movimento faz parte do ser humano desde os primórdios até agora.

Não tenhamos medo do vírus, nem da falta de dinheiro no bolso, ou da caótica situação de não sabermos o que fazer com as crianças em casa, da ameaça de perdermos o nosso status social. Tudo isso já acontecia antes desta pandemia e estava obscurecido pelo brilho egoístico dos nossos sóis individuais que brilham só para nós.

Deixemos o nosso sol brilhar também para o outro. Nada irá nos faltar se mantivermos a confiança no futuro.

Profundamente agradecido pela oportunidade de poder expor os meus pensamentos a toda equipa do Ephesus Therapeutikum.

Agradeço àqueles que irão ler os nossos pensamentos e usufruir dos nossos oferecimentos.

Estaremos sempre disponíveis para exercer a nossa atividade terapêutica seja no âmbito médico ou nos diferentes âmbitos complementares.

Desejo a todos um lindo dia primaveril.

Dr. Mauro Menuzzi
medicina@ephesus.pt
Tel: 912 456 818